Bem – estar na ponta dos dedos

A TÉCNICA SEGUE OS PRINCÍPIOS DA MILENAR MEDICINA CHINESA, QUE VÊ O SER HUMANO COMO UM TODO NO QUAL OS ASPECTOS MENTAIS, EMOCIONAIS E FÍSICOS ESTÃO INTERLIGADOS

POR EDNA VAIROLETTI

bem estar

Um toque com a ponta dos dedos. Uma pressão mais forte ou movimentos suaves. É essa forma simples, mas que exige técnica e conhecimento, que se aplica o do-in, uma automassagem milenar que segue os princípios da medicina tradicional chinesa, segundo a qual a saúde está relacionada com a condição energética do nosso corpo e nossos órgãos.

O do-in guarda a visão de que somos únicos e que o corpo é um todo. Os aspectos mentais, emocionais e físicos estão interligados por canais chamados de meridianos, alinhados verticalmente e duplicados dos dois lados do corpo, pelos quais circula a energia vital, conhecida como qi. Nesses trajetos se localizam quase mil pontos, ordenados entre si e que precisam estar livres para que a energia possa fluir. Às vezes eles têm de ser estimulados. Outras vezes, sedados, para que fiquem em sintonia. Um descompasso ou bloqueio nesse sistema pode afetar a saúde e o bem-estar.

O do-in busca, justamente, restabelecer o equilíbrio nessas vias energéticas, pois, quando há excesso ou escassez de energia nos pontos, a imunidade diminui, gerando um distúrbio no organismo. Assim, a doença é explicada como a concentração da desarmonia do fluxo energético em alguma parte do nosso corpo. “Com essa circulação de energia se evita o acúmulo da força yangou a deficiência da força yin. A falta de equilíbrio de tais forças é a etiopatogenia, ou seja, a origem das doenças”, detalha Sidney Donatelli, massoterapeuta, professor de movimento consciente e fundador e diretor da escola Amor.

Os pontos utilizados no do-in repetem os da acupuntura. “São técnicas irmãs. Só que o do-in, em vez de agulhas, utiliza as pontas dos dedos para estimular os pontos. Na acupuntura, atingem-se níveis energéticos mais profundos e se delega a responsabilidade da aplicação para o terapeuta – além de ser possível combinar, simultaneamente, vários pontos, potencializando os efeitos buscados. Já no do-in, trabalha-se um ponto de cada vez e é possível se automassagear, desde que se aprenda onde estão localizados os diferentes pontos e como manipulá-los corretamente”, explica João Julio Diogo de Almeida, fisioterapeuta, massagista e acupunturista da Humaniversidade e Companhia Zen.

Sidney comenta que o aperfeiçoamento do ato de tocar requer um desenvolvimento da sensibilidade e técnica, o que envolve o conhecimento dos meridianos. “O toque deve estar conectado com os limites acessíveis do corpo, para que este tenha uma resposta produtiva, estabelecendo-se assim um diálogo através da linguagem do tato e de movimentos como uma forma de ‘ler’ o corpo do massageado, e de expressar um estímulo adequado dosando profundidade, tempo, ritmo e velocidade. Uma prática completa dura aproximadamente uma hora, mas pode ser feita no cotidiano com toques mais breves.”

Introdutor do do-in no Brasil e divulgador das técnicas e do pensamento chinês, Juracy Cançado é praticante da automassagem há 40 anos. “Nos anos 70, os princípios da medicina chinesa eram de difícil entendimento. Hoje a própria ciência reconhece seus resultados positivos. Costumo dizer que, em algum momento de nossa vida, todos deveriam fazer uma varredura pelos meridianos, uma faxina, para eliminar conexões interrompidas que causam o adoecimento.”

Juracy explica que a própria expressão do-in – que pode ser traduzida como “caminho suave”, “caminho de casa” ou “caminho in terno” – reflete um pouco desse cuidado com nós mesmos. “Num sentido mais amplo, a técnica induz um olhar para dentro, para nosso próprio crescimento, à medida que praticamos uma autoterapia.”

Ao comparar a sabedoria milenar oriental com nosso atual universo tecnológico, Juracy diz que os meridianos podem ser visualizados como uma rede, um sistema autônomo com portas de acesso: os pontos. Com o toque, essas portas podem ser abertas e atingidas, e assim é possível dissolver a energia acumulada e eliminar o bloqueio existente, permitindo um fluxo normal de conexões livres. “Se um ponto estiver rígido ou dolorido, é sinal de que está desconectado da rede, não deixando a energia fluir. Com o tempo, essa interrupção pode se transformar num problema de saúde.”

O do-in cria, portanto, uma gama de possibilidades para que os pontos sejam trabalhados. Juracy explica que “se o propósito é sedar, a pressão do dedo no ponto é contínua, sem movimento, o que acalma e reduz a excitação causada pelo excesso de energia. Se, ao contrário, houver deficiência energética, é sinal de que a atividade do órgão está em baixa. A proposta nesse caso é tonificar o ponto com toques repetidos. A dor, ao se tocar no ponto, sinaliza que há um bloqueio”, ensina. Em geral, os sintomas do excesso de energia são dor, inflamação, contração e aquecimento. Já os de deficiência incluem hipotensão (pressão baixa), flacidez, suor frio e inchaço.

Para Paulo Minoru Minazaki Júnior, terapeuta corporal, não existe uma “receita de bolo”. “Não se pode considerar que determinado ponto traga benefícios apenas para um problema, pois a dor num local nem sempre tem a mesma origem. É muito importante tratar o ramo, mas é fundamental tratar a raiz. Por exemplo, quando se tem dor de cabeça, usualmente as pessoas tomam um medicamento. Isso trata a dor, mas não a causa da dor. Com a massagem e a acupuntura, a medicina chinesa atua não só na dor, mas na sua causa. Porém, é importante também visitar o médico e fazer exames de imagem para averiguar se existe alguma razão mais grave para essa dor de cabeça”, detalha.

COM CRITÉRIO

Sem o propósito de curar, o do-in é encarado como um tratamento preventivo, lembra o fisioterapeuta João Julio. “Muitas aflições cotidianas podem ser aliviadas, como cefaleias tensionais e cólicas menstruais, nas quais a causa é um desarranjo passageiro”, exemplifica. “Em bora qualquer pessoa possa auto massagear os pontos, a procura de um terapeuta é importante em casos complexos, pois o profissional está mais preparado para orientar os trajetos adequados, indicar os pontos de efeito mais abrangente e, sobretudo, os que se aplicam melhor naquele momento.”

A técnica também é recomendada nos primeiros socorros. “Numa emergência, por exemplo, é uma alternativa para se fazer algo enquanto o profissional especializado não chega. Usando os pontos de doin com conhecimento, o risco de erros e de efeitos colaterais será muito menor do que quando são tomados remédios não prescritos”, defende João Julio.

“Existem casos em que não mexer é a melhor opção”, alerta o terapeuta Paulo Minazaki Júnior, que cita duas situações. “A primeira é uma fratura. Não se faz massagem no membro fraturado, mas, enquanto se locomove o ferido para o hospital ou se espera por socorro, pode-se usar algum ponto de analgesia que não esteja na região lesionada, para promover o alívio da dor. A segunda é a gravidez. Há pontos que não devem ser aplicados na gestante. Existe a hora certa para eles. A antecipação desse momento pode provocar um aborto.”

DO-IN E O CÂNCER

Juracy, autor de diversos livros sobre a técnica, observa que é preciso estar consciente de que, em alguns casos, o do-in significa uma ajuda secundária – no caso de uma infecção causada por bactérias, por exemplo. “O do-in considera que o câncer provoca uma desorganização da rede que já atingiu um nível de degeneração, com o crescimento indesejável das células doentes. Nesse caso, a prática servirá de complementação dos recursos tecnológicos e medicamentos a serem ministrados no tratamento convencional. As drogas alteram as condições naturais do organismo e seu fluxo energético, gerando incômodos como dores de cabeça, enjoos etc. Esses efeitos colaterais poderão ser amenizados com a massagem nos pontos mais adequados.”

Paulo Minazaki Júnior lembra que estudos recentes têm comprovado que a acupuntura pode ajudar a modular o sistema imunológico, diminuindo efeitos indesejáveis da quimioterapia. No entanto, como muitas pessoas são resistentes às agulhas, o do-in pode ser muito útil, uma vez que atua por meio da digitopressão (pressão com os dedos) e da massagem. “Existe um ponto muito pesquisado, o PC6 (Pericardio 6), localizado na região do antebraço, que vem sendo utilizado para tratar enjoos provocados por medicamentos como os quimioterápicos, pela gravidez ou as náuseas sentidas em viagens de barco e avião. A pressão forte nesse e em outros pontos pode diminuir a sensação de mal-estar.”

No que se refere ao quadro clínico dos pacientes oncológicos, o terapeuta corporal não acha recomendável o doente se automassagear. “Há alguns cuidados que precisam ser respeitados nesse grupo. Não se deve promover o fluxo sanguíneo nem o da energia qi através dos meridianos. É para evitar que ocorra maior proliferação das células doentes, ou, popularmente falando, que o câncer se espalhe.”

E adverte: “Mesmo com pequeno risco, um ponto ou manobra errada podem provocar efeito colateral. Por isso, deve-se ter consciência da prática, pois, ao invés de exteriorizar um agente patogênico, a manipulação incorreta do ponto pode fazer com que esse agente se aprofunde. É apenas uma questão de cuidado, e não uma restrição”, enfatiza.

Em suas experiências na oncologia, na maioria dos casos com pacientes terminais e usando diferentes técnicas da medicina chinesa, Paulo diz que a ideia é sempre proporcionar melhor qualidade de vida. “A proposta está em auxiliar o paciente a lidar melhor com a situação e com os efeitos colaterais do tratamento. A receptividade depende de cada um. Tive pacientes revoltados com a doença e em quem, mesmo em coma, percebia-se a rejeição às práticas. Minha mãe se recusava a receber acupuntura, a melhor indicação para aliviar suas dores agudas. Por outro lado, vivi uma experiência fantástica com um garoto de 13 anos, com leucemia, que teve rejeição ao transplante de medula. Apesar da gravidade do problema e da pouca idade, deu uma resposta muito importante durante todo o processo. O que conseguimos foi melhorar sua qualidade de vida no período de internação, já que o caso era grave e foi irreversível.”

O massoterapeuta e escritor Sidney Donatelli diz que o princípio do do-in visa ao fortalecimento das resistências orgânicas, auxiliando e complementando o tratamento oncológico. “Já atendi vários pacientes com câncer e não é possível mensurar o efeito dos diversos métodos, pois não existe uma pesquisa pontual. Mas as aplicações são fundamentais para a estabilidade, permitindo uma tomada de consciência do processo pelo qual se está passando. Cito aqui um depoimento: ‘Os oito meses que antecederam a decisão sobre a minha cirurgia de grave câncer em 1998 e, depois de cinco anos, a nova batalha contra o tumor que voltou tiveram nas nossas sessões paralelas ao tratamento médico uma grandiosa estabilidade emocional’. Tal afirmação foi feita por um paciente meu de 81 anos.”

Independentemente da complexidade dos recursos tecnológicos e medicamentos avançados, ou da simplicidade do toque do do-in, o desafio é trazer o alívio das manifestações incômodas da doença, seja ela grave, crônica ou emergencial.

Créditos: ABRALE – Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia – http://www.abrale.org.br

 

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