3º episódio da série sobre o câncer 2016 – Jornal Nacional

Terceiro Episódio – Série sobre o câncer

Filas para cirurgias aumentam angústia de pacientes com câncerApesar de lei determinar o tratamento aos pacientes até 60 dias depois do diagnóstico, não é isso que é encontrado na prática. O Jornal Nacional está apresentando essa semana uma série especial sobre as deficiências no atendimento a pacientes de câncer no Brasil. Apesar de uma lei determinar o início do tratamento até 60 dias depois do diagnóstico, não é isso que acontece na prática. A imagem impressiona. O que parece um planeta com uma grande mancha escura é, na verdade, um globo ocular com um tumor de coroide, um câncer. É o olho da Shirley de Souza Marques. Veja no vídeo acima. “Diagnosticou um tumor de 4,1 milímetro dentro de um período para tratamento. A partir de 6 milímetros ele já começa a não ter mais chance de tratar, com 9 milímetros é a enucleação total do globo ocular”, explica a recepcionista. Enucleação é a retirada total para a colocação de um olho de vidro, mas no caso da Shirley havia opção. “A braquiterapia é um tratamento que consiste de uma radioterapia de contato. A grande vantagem é a tentativa da preservação do olho e da visão, sendo uma radiação focalizada para aquela região do tumor”, aponta a oftalmologista Márcia Motono. Descobrir a doença no comecinho, como aconteceu com a Shirley, representa uma enorme vantagem para chegar à cura. Mas muitos brasileiros que dependem do SUS já começam em desvantagem. Demoram na largada, que é o diagnóstico. Além disso, há barreiras pela frente, elas são muitas e atrasam ou derrubam quem sonha com a vitória. A primeira barreira Shirley encontrou no hospital federal onde teve o diagnóstico. “Faz braquiterapia no hospital São Paulo, mas não tem verba para a placa. Não tem verba, não tem dinheiro”, diz. Ela continuou a corrida, só que agora na pista estadual. “Eu fiquei o dia inteiro no Hospital das Clínicas fazendo exames. A solução: ‘Não faz, não fazemos braquiterapia, o Hospital das Clínicas não faz o tratamento braquiterapia ocular’”, conta. A angústia só aumentava. “Falava para meu filho assim: ‘Filho, mamãe sai de casa com uma bolsa de exames e na outra mão é uma bolsa de esperança. Aí eu chego nos lugares, a bolsa de esperança fica no lixo’”. O medo da doença se espalhar fez Shirley pensar em desistir de preservar o olho. “Falei: ‘Eu vou tirar, não quero mais’. É muito não, é muita humilhação, é muito sofrimento. Então se no Hospital São Paulo fazem a enucleação, é a enucleação que vou fazer”, diz. O marido sofria junto, mas não a deixava fraquejar. O fim da maratona, para chegar ao tratamento, estava na pista municipal. Só que Shirley teria que partir do zero. Como mora em Osasco precisou de um comprovante de residência de parente em São Paulo para entrar na fila do município. “E eu entrei no sistema siga. Aí a fila é aquela fila a perder de vista”, lembra Shirley. O Jornal Nacional foi até a chamada Central de Regulação da cidade de São Paulo para saber como funciona esse sistema de encaminhamento dos pacientes para os especialistas e para os tratamentos contra o câncer. Os computadores estão ligados aos postos de saúde, que mandam os pedidos de quem já tem o diagnóstico de câncer. Já os institutos e hospitais que tratam a doença, oferecem vagas e horários com especialistas. Os profissionais de saúde, de olho nas telas, juntam os dois. A médica que coordena o serviço surpreende.Marli da Costa Taraia, coordenadora da Central de Regulação de São Paulo: Hoje eu não tenho fila.Jornal Nacional: Por que pessoas estão esperando então, às vezes?Marli: Na verdade falta o diagnóstico para ele ter acesso ou ele está andando de um lado para o outro e não conseguindo chegar. E ela vai mostrando os problemas: erro na ficha do paciente pode travar o sistema. “Um CEP que não foi preenchido, você para todo o serviço e vai procurar”, diz Marli da Costa. Já um hospital que não atende pode fazer um paciente de alto risco voltar para o começo da corrida. “Tentou marcar oncologia cabeça e pescoço, na Santa Casa, mas foi orientado a procurar uma UBS, porque não havia vaga. Aí tem o resultado da biopsia, que é um carcinoma espinocelular moderadamente diferenciado e invasivo”, exemplifica a coordenadora. O Brasil precisa com urgência que o sistema de regulação saia do papel e distribua os pacientes com câncer pelos serviços estaduais, municipais e federais. É uma reivindicação que ouvimos de todos os especialistas.“Acho que precisava ser um fluxo mais transparente. Que eu possa ligar para uma central ou que eu possa acessar uma internet que me fale em que lugar da fila eu estou. ‘Vai para casa que te chamo’, não dá pra ser assim”, comenta Luciana Holtz de Camargo, presidente do Instituto Oncoquia – SP.“Ao meu ver, a saída é o investimento maior em saúde. Uma gestão muito mais profissionalizada. Tentando sempre fazer uma análise muito correta de custo benefício”, diz o diretor do Centro Oncológico Antônio Ermírio de Moraes, Fernando Cotait Maluf. “O Sistema Único de Saúde, ele é perfeito. Acho um sistema magnífico. O problema é a burocratização que o sistema coloca. E o câncer ele não pode ficar esperando essa burocracia. Ele avança rapidamente”, afirma Pascoal Marracini, Diretor do Instituto do Câncer Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho – SP.Quando a Shirley finalmente entrou no sistema, havia oito pessoas precisando do mesmo tratamento e só quatro vagas. Foi difícil, mas ela conseguiu vaga no Hospital AC Camargo, um dos melhores do país e que atende pacientes do SUS e particulares também.“Finalmente. Graças a Deus. A tão esperada hora. Era o tratamento, a batalha foi longa, mas graças a Deus estou aqui”, diz Shirley. Chegar em um centro público de excelência é uma glória. O Icesp, Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, é um deles. Trata atualmente 48 mil pacientes e recebe mil novos por mês. Foi criado para fazer tratamento humanizado e de ponta. Tem até robô para a cirurgia. Mas não dá para todo mundo.“Os indivíduos fazem, na busca da cura, é uma corrida de barreira. Ele vence um obstáculo, tem que vencer um segundo, um terceiro porque é a vida dele”, aponta William Nahas, chefe de Urologia do Instituto do Câncer do Estado de SP.Cura é a palavra que a Shirley ainda tem que esperar para ouvir, mas os primeiros exames depois da cirurgia mostram que a braquiterapia foi um sucesso. A alegria é enorme.“Alívio, alívio de saber que eu estou enxergando, que eu não precisei retirar meu olho, meu globo ocular está aqui, verde, lindo, maravilhoso”, comemora Shirley.Mas a felicidade não é completa. “E as outras pessoas que estão aguardando na fila? Como estão? O que será de cada uma delas?”, questiona Shirley.

Publicado por Combate ao Câncer em Quarta, 3 de fevereiro de 2016

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