2º episódio da série sobre o câncer 2016 – Jornal Nacional

Segundo episódio – Série sobre o câncer

Brasileiros com câncer sofrem com a falta de aparelhos de quimioterapiaSegunda reportagem da série do JN mostra que muitos estão perdendo a batalha contra a doença porque não tem recursos e proteção necessárias.Os brasileiros que precisam de tratamento contra o câncer pelo SUS encontram uma sucessão de obstáculos que pode comprometer qualquer esforço deles – e dos médicos. Na segunda reportagem da série especial que o Jornal Nacional apresenta nessa semana, a Graziela Azevedo e o Ronaldo de Sousa que muitos não conseguem nem fazer quimioterapia.“O Brasil precisa conhecer o estado de guerra que se dá aqui nessa luta contra a morte, em favor da vida”, diz o padre Paulo Roberto Matias.“Tinha cinco pacientes, os quatro morreram e eu fiquei. Entrou mais quatro, os quatro morreram e eu fiquei”, conta uma paciente.“Osvaldo tinha uma família, três filhos – 7, 9, 12 anos”, lembra um homem. O inimigo é poderoso. Nas estatísticas oficiais, o Brasil deve registrar cerca de 600 mil casos novos de câncer em 2016. Já é a segunda doença que mais mata no país e muitos brasileiros estão perdendo a batalha simplesmente porque não tem recursos, não tem proteção ou as armas necessárias para lutar contra ela.Uma casa de apoio, com voluntários no atendimento. O padre de Macapá faz o que pode para ajudar os pacientes.Consolar, arrumar dinheiro, tentar consulta pra quem não consegue. É o dia inteiro assim.Osvaldo Lamarão Trindade. Operário da construção civil, 31 anos, casado, pai de três filhos. Era Osvaldo, o irmão que Reginaldo tentou ajudar.“A gente vê o familiar sofrendo, sem poder fazer nada”, diz um homem.Mas Reginaldo fez. Osvaldo estava com câncer no testículo e foi tratar no Hospital Geral de Macapá. O hospital é público, mas ele precisou se virar para arrumar dinheiro.“Fizemos uma rifa, conseguimos o dinheiro, compramos a medicação, foi a partir daí que nós conseguimos marcar o dia pra fazer a quimioterapia. Só que foi tarde demais”, lembra Reginaldo Lamarão Trindade, irmão de Oswaldo.Difícil de acreditar. Mas é a pura verdade.O Jornal Nacional foi até a casa do Reginaldo pra mostrar o medicamento, a quimioterapia que ele comprou e o irmão nem chegou a usar. Está na nota fiscal: R$ 2.076, de 6 frascos de bleomicina.Fica na geladeira. “Precisa guardar dentro do isopor com gelo, pra manter a temperatura e sobraram essas duas porque as 4 eu doei pra um sujeito que estava precisando da mesma medicação. A gente tira de onde não tem pra poder salvar uma vida né. E infelizmente não houve tempo de salvar a vida do meu irmão”, lamenta Reginaldo.A secretária, que há cinco meses assumiu a saúde no estado, admite a falta de remédios para tratar o câncer. Reclama dos preços altos cobrados, do boicote às licitações planejadas para baixar preços e pede ajuda ao Ministério da Saúde.“Tivemos um medicamento que o preço nacional é vendido a R$ 12 mil e para o Amapá foi ofertado o preço a R$ 24 mil. Acho que a Coordenadoria Nacional Farmacêutica junto ao Ministério da Saúde poderia articular uma licitação, como é feito pra pacientes hipertensos, diabéticos, pra pacientes oncológicos. Ainda que esses valores sejam descontados dos repasses aos estados”, aponta Renilda Nascimento da Costa, secretária de Saúde do Amapá.O ministério da Saúde explica que centraliza a compra dos remédios considerados estratégicos e que não dá para comprar tudo. Por isso recomenda ações regionais para que os estados paguem menos.“Como ele se defende disso? Juntando com outros gestores pra que façam uma compra conjunta. Essa é a melhor forma de enfrentar o poder econômico inclusive da imposição de preços maiores”, comenta Alberto Beltrame, secretário nacional de Atenção à Saúde.Remédio não é o único problema. No Amapá equipamento de radioterapia não existe. Falta também em Roraima. O do Acre ficou quebrado sete meses ano passado. O Nordeste só tem 30% da cobertura de radioterapia recomendada pela Organização Mundial da Saúde. E a rádio é fundamental para tratar cerca de 60% dos casos de câncer, segundo a Sociedade Brasileira de Radioterapia. Em 2012, o Ministério da Saúde anunciou a compra de 80 aparelhos.“A hora que você vê no papel e como foi concebido é fabuloso”, diz Eduardo Weltman, presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia.Mas para sair do papel, o programa de expansão da radioterapia precisaria de coordenação, do empenho de governos e hospitais. Além de físicos, médicos, técnicos, a instalação exige um local especial, protegido contra radiação.Entre tantas dificuldades, há os custos em dólar, pesando contra os equipamentos novos e contra os antigos também. Até agora só a Paraíba está perto de cumprir o cronograma.“Tem vários colegas meus que trabalham pro SUS, que trabalham em santas casas, hospitais beneficentes, onde os aparelhos deles estão se sucateando porque não tem como pagar as peças”, diz Eduardo Weltman.“Isso não é um direito igualitário aos pacientes das diferentes camadas sociais. O paciente do SUS está com certeza sendo prejudicado”, afirma Robson Ferrigno, do Centro Oncológico Antônio Ermínio de Moraes.“Na quimioterapia, nós aumentamos 34% se comparar com o ano de 2010. A cirurgia cresceu em torno de 30% mais ou menos. A radioterapia cresceu 20%. Nós precisamos crescer mais? Precisamos. E é o que estamos fazendo todo dia. Nossa preocupação diária é tornar isso viável”, comenta Alberto Beltrame.Em meio às carências do Sistema Único de Saúde encontramos a resistência e a força de pacientes como dona Maria do Rosário da Silva. “Sou do Laranjal do Jari, então lá não tem médicos assim especializados, só aqui em Macapá, são 6 horas, 7 horas de viagem, de ônibus, e a gente tem que dormir aqui na fila, pra pegar médico pra tal mês, entendeu?”, diz a dona de casa.Há 12 anos ela teve que ir ainda mais longe, para Belém, por causa de um câncer no céu da boca. Há um ano trata, na Unacon de Macapá, um tumor na bexiga.“Passei 1 mês na oncologia esperando medicamento, esperando material que não tinha, ia pra sala de cirurgia e voltava e o pessoal morrendo ali perto de mim e eu também achando que eu também ia entrar nessa”, conta.Uma liminar na Justiça garantiu a transferência para a retirada da bexiga num hospital particular. A quimioterapia foi no SUS.“A última sessão eu não fiz. Porque não tinha o remédio, é muito caro”, afirma.A carteirinha de saúde mostra a última quimioterapia em branco, um vazio perigoso que ela preenche com um apelo.“O governo deveria se preocupar mais com a área da saúde. Eu quero me cuidar, viver mais um pouco. Já estou vendo a minha terceira geração chegando, que são os bisnetos. Eu vou lutar”, afirma Maria do Rosário.

Publicado por Combate ao Câncer em Terça, 2 de fevereiro de 2016

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1º episódio da série sobre o câncer 2016 – Jornal Nacional

Assista ao primeiro episódio abaixo:

Primeiro Episódio – Série Sobre o Câncer

Assista o primeiro episódio da série sobre o câncer:Brasileiros deixam casa em busca de tratamento para parentes com câncer.Porque o nosso país trata de forma desigual os pacientes de câncer.Os que têm acesso a hospitais privados ficam mais perto dos remédios mais modernos, das técnicas mais avançadas de tratamento. Mas os repórteres Graziela Azevedo e Ronaldo de Sousa mostram que 75% dos doentes dependem do SUS. Antes havia o rio. As delícias e belezas da terra. O futuro chegando. De repente, só lágrimas e vazio. Sabrina chora por sua mãe que não verá os netos, gêmeos, nascerem no Amapá. Aos 47 anos, morreu de câncer, mas não só dele. Sabrina: Foi pela demora e a espera.Jornal Nacional: Muito tempo de espera?Sabrina: Foi.Jornal Nacional: O que você mais sentiu que faltou pra ela?Sabrina: Tudo.Esse drama ainda ecoava na cabeça de Dilberto quando o encontramos em São Paulo. A senhora enterrada em Macapá era vizinha da mãe dele, que também sofre de câncer colorretal – o que mais atinge as brasileiras depois do câncer de mama.O medo de que a história se repetisse trouxe Dona Fátima para São Paulo. Veio se tratar no Instituto Arnaldo Vieira de Carvalho, que só atende pacientes do SUS. São 30 mil em tratamento, mil novos todo mês. A maioria é de São Paulo, 30% vem de fora como Dona Fátima.“Foi uma história aí, um caminho, pra poder chegar aqui. Um longo caminho”, conta a dona de casa Fatima Maciel.A papelada que trouxe na bagagem mostra que foram 9 meses de busca por diagnóstico e tratamento enquanto o tumor crescia.Dilberto Palheta, filho de Dona Fátima: A gente teve que tirar dinheiro do bolso pra poder fazer as biopsias. Fez uma, não deu resultado, fez duas, não deu resultado, fez três, não deu resultado. Quando foi na última, que foi o resultado pro médico dar o laudo.Jornal Nacional: Por que não dava resultado?Dilberto: Porque estavam tirando material do local inadequado.“O câncer é uma doença que não perdoa falhas, não perdoa atrasos, não perdoa qualquer tipo de lentidão ou de falta de experiência. O grau de investimento na saúde no sistema público ele é menor, ele é pequeno, ele é insuficiente e obviamente você vai se deparar com uma situação de imensas limitações pra poder vencer essa batalha”, comenta Fernando Cotait Maluf, diretor do Centro oncológico Antônio Ermírio de Moraes.Entender o que acontece com os brasileiros que precisam de tratamento de câncer no SUS não é fácil. O ideal, para uma doença que se complica quando o tempo passa, é que o diagnóstico seja precoce, que o tratamento seja rápido e de qualidade. Mas quem precisa de um caminho reto se vê muitas vezes num verdadeiro labirinto que consome energia e devora vidas. E são muitos os brasileiros nesse labirinto.“Ela ficou tão apavorada de bater de porta em porta e não conseguir em lugar nenhum vaga, nem pra atender nem pra passar num médico, que chegou uma hora, ela falou: ‘minha filha, vou desistir, vou embora, deixa, vou morrer em casa mesmo, porque não aguento mais”, conta Edilene.A mãe da Edilene, Dona Verúsia, veio da Bahia. A Célia Teodoro, que perdeu a irmã para o câncer, veio do Paraná.“Acho uma injustiça, porque acho que todas as cidades, por mais pequena que fosse, tinha que ter um tratamento pras pessoas com essa doença”, afirma a cabeleireira.Rose, é de São Paulo mesmo, e tem a mão da mãe na sua. “Representa que eu não estou sozinha”, conta.São todas companheiras de hospital da Dona Fátima, que só não está sozinha porque o filho largou o emprego de professor em Macapá.“A gente teve que se virar, emprestar dinheiro a juro, nós chegamos a emprestar dinheiro a juro também, ajuda da família também, entendeu?”, diz Fátima.E, com ajuda e comprovante de endereço de um amigo daqui, conseguiu tratamento pra mãe em São Paulo.“Já é difícil o diagnóstico, aí quando consegue um serviço, passou por 2, 3, 4 serviços pra chegar num serviço de excelência. E aí realmente o estágio já é avançado. Muito pouco as vezes pode-se fazer”, explica Pascoal Marracini, diretor administrativo do Instituto do Câncer Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho.Pra conhecer mais de perto a realidade da Dona Fátima e dos brasileiros do norte do país nós fomos até o Amapá. Santana, no bairro Paraíso, é onde Dona Fátima mora. A casa simples e colorida está cheia de saudade.“O coração tá a mil, querendo que minha mãezinha volte logo, e a saudade é muita, o mais difícil é ficar longe”, afirma Joseane Maciel Palheta, filha de Dona Fátima.Na Unacon, Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia, em Macapá, falta serviço de radioterapia. Faltam remédios para quimioterapia, falta um prédio novo. O pouco que tem exigiu muita batalha dos médicos. “A gente não consegue realizar o trabalho que nós gostaríamos de realizar. Muitas vezes a gente tem como solução pra que paciente tenha uma alternativa, encaminhar pra fora do estado”, diz Roberto Marcel Alvez, diretor de oncologia da Unacon.O Ministério da Saúde diz que tem normas bem definidas sobre o atendimento aos pacientes e que qualidade é obrigação de quem presta o serviço.“Os serviços de saúde, eles são obrigados a ter serviços plenos e integrais. A responsabilidade pela qualidade do que contrata e do que realiza é do diretor técnico do hospital”, afirma Alberto Beltrame, sec. de Atenção à Saúde – Min. da Saúde.“O ideal era ter o tratamento aqui, no nosso estado. Pra que as pessoas que não têm condições pudessem fazer o tratamento aqui ou que o governo, não tendo o tratamento aqui, tivesse uma atenção maior com essas pessoas. Que essa doença é tão grave e não pode esperar”, comenta a filha de Dona Fátima.

Posted by Combate ao Câncer on Monday, February 1, 2016

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